sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DA MEMÓRIA



Classificação:
Memória Explícita: semântica e episódica / Memória implícita /memória operacional
Memória operacional: pequenas quantidades de informação por poucos segundos. Vulnerável e dependente dos níveis de atenção (memória RAM).
Memória de curto prazo: envolve quantidades intermediárias de informação por poucos minutos.
Memória de longo prazo: envolve quantidades maiores de informação por períodos que variam desde poucos minutos até vários anos.
Memória explícita ou declarativa: ocorre recuperação consciente do material.
Memória implícita ou não-dclarativa: a experiência prévia influencia o comportamento ou a cognição embora não haja recuperação consciente. Memória de procedimento: condicionamento clássico, condicionamento não-associativo e habilidades perceptivo-motora. Pré-ativação ou priming: demonstrada pela capacidade de gerar ou identificar estímulos (verbais ou visuais) previamente estudados.
Gradiente temporal: os traços de memória são armazenados temporariamente antes de serem gradualmente reorganizados e armazenados de modo mais permanente no neocórtex.
Normalmente avalia-se a m. explícita, a implícita precisa ser avaliada quando se quer avaliar comprometimento subcortical. Acidentes com doenças primariamente corticais (Alzheimer) podem manter a m. implícita por longos períodos. Pacientes com doenças primariamente subcorticais (Huntington) apresentam comprometimento da memória implícita.
Habilidades e hábitos: estriado. Pré-ativação: neocórtex. Condicionamento: amígdala e cerebelo. Aprendizado não-associativo: vias reflexas.
Avaliação da memória - anamnese: sintomas isolados x associados, início insidioso x abrupto, distinguir recente x remota, curso estável x progressivo, nível pré-mórbido, outros fatores associados (depressão, medicamentos).
Avaliação nuropsicológica da memória – avaliar memória operacional, de curto e longo prazo. Deve compreender; atenção, linguagem, visopercepção.
Avaliação da memória operacional verbal; ordem reversa de dígitos, soletração e contagem reversa, operações seqüenciais (somar de 3 em 3) e PASAT.
Avaliação da memória operacional visual: finger Windows, blocos de corsi
Avaliação da memória de curto e longo prazo: estímulo – recuperação imediata, distratores, recuperação com pistas, recuperação tardia, reconhecimento.
Aspectos importantes para o diagnóstico: gradiente temporal, recente x remota, gaps, períodos de melhora e pioras, correlação do QI e nível pré-mórbido, discrepância verbal/visual, início, curso (evolução).
Amnésia psicogênica – dicas clínicas: perda de identidade, dissociação entre memória história e memória autobiográfica, preservação da capacidade de aprendizado, belle indiferénce.
Organização da memória: de acordo com o tipo de material: verbal (HE) e não-verbal (HD).
Avaliação da memória explícita:
Verbal: histórias, listas de palavras
Visual: desenhos
Mistos: nomes e faces
Teste de listas de palavras: Rey verbal (RAVLT), teste verbal Califórnia, escala de avaliação de memória.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

OBJETIVOS DA AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA





· Identificar déficits, determinar como eles afetam o funcionamento geral do indivíduo, estabelecer as inter-relações entre déficits, correlações entre déficits específicos e a neuropsicologia.
· Estabelecer/contribuir para um diagnóstico clínico.
· Delinear o perfil cognitivo em casos de diagnóstico já determinado.
Avaliação neuropsicológica da atenção
A atenção seria a capacidade de selecionar e manter controle sob a entrada de informações externas necessárias num dado momento. A atenção também diz respeito ao controle de informações geradas internamente.
ATIVAÇÃO: tônica (controle interno) – fisiológico ciclo sono-vigília se relaciona com a intensidade de vigília. Fásica (controle externo): modificações momentâneas na responsividade geral, freqüentemente controlada pelo meio externo.
Atenção seletiva, alternada, dividida, sustentada (concentração).
AVALIAÇÃO DA ATENÇÃO:
Em muitos casos de lesão cerebral a desatenção pode ser o único déficit existente. A avaliação da atenção é obrigatória em qualquer exame neuropsicológico, devendo inclusive preceder àquelas demais funções. Deve sempre considerar o estado de cs, a motivação, cansaço, o humor e a ansiedade em perfazer as tarefas.
Testes:
  • Seletividade e sustentação cancelamento, Tavis-3, stroop, CTP. Alternada: testes das trilhas, Tavis-3, digit symbol (símbolos) Amplitude (span) quantidade de material que pode ser inicialmente apreendida quando o material é apresentado uma única vez: digit-span, span de palavras, span de posições espaciais (corsi, finger Windows), repetição de frases. Tempo de reação: tavis-3, CPT.
    O PASAT (o examinando tem que ir somando de 2 em 2 dígitos da seqüência, sem anotações é um teste de atenção e velocidade de processamento. O teste CPT (contínuos performance test), consiste em clicar na letra-alvo quando este aparecer na tela.
    Principais causas dos déficts de atenção: TDAH, depressão, fármacos, seqüela de TCE, esquizofrenia.
  • Testes altamente dependentes da atenção:
    Aritmética, testes das fichas, símbolos, testes de memória e que envolvam percepção visual de detalhes.

SKINNER: O CIENTISTA E O FILÓSOFO



“Como podemos situar Skinner? Seus experimentos são perturbadores em suas implicações. Por outro lado, suas descobertas são certamente significativas. Em essência, elas iluminam a estupidez humana, e qualquer coisa que ilumine a estupidez é brilhante.” (Slater, 2004)
Ainda seguindo os passos de Lauren Slater sobre a complexa personalidade de Skinner e seus pensamentos pragmáticos, porém humanitários e talvez até idealistas, encontro pistas de seus escritos sobre a relação emoção/comportamento, vale lembrar que Skinner como bom behaviorista, era também antimentalista.
De acordo com Skinner quando agimos vilmente, sentimo-nos vil, e não vice-versa. Ou seja, não existe, para Skinner, o caminho inverso: um sentimento (ou emoção) precedendo um comportamento, os sentimentos ou emoções são sempre conseqüências de um comportamento. Talvez possamos inferir, então, que o comportamento de pessoas alegres e felizes possa interferir em um grupo social. Ele concorda que o homem existe irrefutavelmente em relação ao seu meio ambiente e nunca poderá se livrar dele.
Na visão de Skinner, estamos entrelaçados e precisamos assumir responsabilidade pelos fios que nos ligam. Isto significa que podemos aprender com o comportamento de um indivíduo em grupo social? Creio que Skinner concordaria afirmativamente com a pesquisa sobre a felicidade como contagiante, mas entendendo felicidade como um comportamento operante e passível de reforço positivo.
No seu livro mais filosófico do que científico, Beyond freedom and dignity, Skinner escreve:
“As coisas pioram continuamente e é desanimador descobrir que a própria tecnologia é cada vez mais falha. O saneamento e a medicina tornaram mais agudos os problemas de controle populacional. A guerra adquiriu um novo horror com a invenção de armas nucleares, e a busca intensa pela felicidade é em grande parte responsável pela poluição”
Skinner escreveu esse texto em 1971, e nos diz algo como: as sensações ou sentimentos são conseqüências do comportamento. Quem escreve isto o Skinner cientista ou “filósofo”? Sua filha Julie Skinner responde: você não pode separar a ciência da filosofia. Será???
Referência bibliográfica: Mente e cérebro, Lauren Slater, 2004, editora: ediouro.

SKINNER



Bem, o que pensaria Skinner sobre a idéia da felicidade ser contagiante? Será que a emoção pode ser aprendida e condicionada como vários comportamentos humanos?
Lauren Slater escreveu no seu livro: Mente e Cérebro, um capitulo dedicado à Skinner e suas descobertas... Vamos dar um breve mergulho neste importante psicólogo do século 20.
Lauren entrevista Stephen Kosslyn, professor de psicologia em Harvard: “Prevejo um ressurgimento de Skinner. Eu próprio sou um verdadeiro fã de Skinner. Os cientistas estão agora mesmo fazendo novas descobertas excitantes que apontam para os substratos neurais dos achados de Skinner”. (Slater, 2004)
Kosslyn explica a descoberta dos neurocientistas a respeito das bases neurais da aprendizagem, por hábito ou condicionamento, estarem localizado nos gânglios basais, enquanto o aprendizado ligado a criatividade e planejamento estão localizados no córtex frontal.
As idéias de Skinner também são bastante utilizadas na área da psicologia clínica (TCC), com técnicas de dessensibilização sistemática e inundação, extraídas diretamente do repertório operante de Skinner para tratar fobias e transtornos de pânico, assim como os métodos comportamentais foram levados aos asilos governamentais e aplicados aos gravemente psicóticos.
Há ainda aplicações da suas idéias numa aplicação behaviorista para segurança no trânsito. Outro psicólogo chamado Bryan Porter, entrevistado também por Lauren, responde: “Com o uso de técnicas behavioristas, pudemos reduzir a direção perigosa, no que diz respeito ao número de avanços de sinais vermelhos em 10% a 12%”. (Slater, 2004)
Enfim, a teoria de Skinner é atual em muitas áreas da psicologia e aplicável beneficamente para a humanidade, não resta nenhuma dúvida. Porém, resta ainda a dúvida, segundo o pensamento behaviorista: a felicidade é contagiante?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

NEUROPSIQUIATRIA e suas implicações


“A neuropsiquiatria é o ramo médico que integra os domínios da neurologia e da psiquiatria, e suas relações.” Esta definição retirada da Wikipédia restringe este estudo ao campo da medicina. Contudo, atualmente, observa-se também influência das neurociências e da psicologia através das avaliações neuropsicológicas em pacientes com transtornos psicopatológicos.
A neuropsiquiatria é também considerada um campo de estudo que está situado na interface entre a neuropsicologia a psicopatologia. É uma área do conhecimento que busca investigar as correspondências ou relações entre as regiões cerebrais e as funções cognitivas com psicopatologias já estabelecidas.
As pesquisas mais recentes mostram que crises repetidas de depressão, psicose, pânico podem alteram a estrutura cerebral em termos químicos e estruturais (volume de certas estruturas cerebrais, principalmente o Hipocampo). Cada vez mais você vai ouvir falar: depressão prolongada ou depressões repetidas fazem mal para o cérebro. O tratamento protege seu cérebro dessas alterações. Por isso a importância das intervenções medicamentosas.
Foi provado cientificamente que em Depressão, Depressão Bipolar, Psicose, Distimia, Distúrbio Afetivo Bipolar, entre outras, a Psicoterapia pode ser importante pelo seguinte:
Aumenta a adesão ao tratamento. Estamos falando de doenças de longa duração, e mesmo que elas tenham passado, a manutenção da medicação pode ser prolongada. A psicoterapia ajuda a manter o uso disciplinado dos medicamentos.
Ajuda a manter o ritmo de atividade, lazer, sono que é importante na manutenção da saúde.
A psicoterapia detecta sintomas e recaídas em estágios bem iniciais.
Ela minimiza o impacto negativo da doença na vida pessoal, acadêmica, profissional.
A Psicoterapia ajuda a identificar a presença de efeitos colaterais dos medicamentos. Exemplo: impregnação de neuroléptico (Antipsicótico) pode simular uma Depressão e pode piorar o sono por causa da Acatisia (necessidade de mexer as pernas). Ela ajuda a diferenciar o que é sintoma da doença e o que é uma circunstância normal da vida que possa estar deixando a pessoa mais ansiosa ou mais triste por exemplo

A FELICIDADE É CONTAGIANTE?



Todos concordaram que alguns comportamentos humanos são altamente contagiantes. Muitas vezes não seguramos um bocejo perto de alguém que está bocejando, assim como um fumante tende a fumar perto de outro. Contudo quando o assunto trata-se de uma emoção existe uma gama de opiniões divergentes.
Lehrer (http://scienceblogs.com/cortex/) escreve no seu blog que sim, a felicidade pode ser contagiante. A partir de pesquisas no âmbito da psicologia social alguns autores afirmam que a felicidade tem um papel social importante nas redes sociais humanas. Ou seja, essa emoção pode ser adaptativa em um grupo social.
Segundo Christakis, sociólogo de Harvard, a felicidade não é uma experiência individual, mas uma “identificação” entre pessoas de um grupo. Pessoas felizes tendem a estar no centro de seus grupos sociais e a participarem de grupos de pessoas também felizes! O autor admite que a emoção felicidade não seja estática e, portanto pode sofre alterações do meio. Porém acredita que a felicidade pode servir de modelo adaptativo, aumentando a ligação entre as pessoas e redes sociais.
Mas o que está por trás desta teoria? Podemos dizer que a emoção de felicidade pode funcionar como o modelo dos neurônios espelhos? Porém se isso fosse verdade valeria para outras emoções também, como tristeza, raiva ou medo. Por que só a felicidade é contagiante?
Um outro aspecto para pensarmos é no próprio conceito de felicidade, podemos observar que existem pessoas mais alegres ou felizes do que outras, tanto quanto tristes e deprimidas, mas segundo aprendemos na universidade, estes são aspectos de personalidade construídos ao longo da vida. Será ele contagioso? Uma boa idéia seria formar terapeutas somente as pessoas felizes, otimizando os atendimentos psicológicos através do modelo quanto a esse quesito.
Há outra questão para refletir: é possível fazer essa correlação: pessoas alegres atraem pessoas alegres? Ou seja, vivemos em clusters de alegres ou deprimidos? Não há misturas no meio social?
Bem, se essa teoria é verdadeira, por que não usá-la em prol da humanidade? Polyanna adoraria esta idéia, assim como Skinner.

domingo, 14 de dezembro de 2008

NEUROIMAGEM, PENSAMENTOS E SONHOS





O que pensaria Freud da nova descoberta dos pesquisadores japoneses a respeito da visualização através da neuroimagem dos nossos pensamentos e sonhos? Será que sua teoria dos sonhos seria finalmente comprovada ou considerada totalmente fora de propósito científico?
Numa reportagem da BBC (http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2008/12/12), cientistas japoneses declaram estarem próximos de uma nova tecnologia de neuroimagem que possibilita a visualização de alguns tipos de pensamentos. Para que isso seja possível os pensamentos devem ser expressos em palavras ou objetos, pois estas são formas de “pensamento” codíficável para que as máquinas possam escanear em “imagens”.
Estas pesquisas estão baseadas nos estudos sobre o processamento visual, ou seja, como são codificadas as imagens que chegam a nossa retina no córtex visual, o qual se localiza na área occipital do cérebro humano.
“O pesquisador-chefe Yukiyasu Kamitani, de 38 anos, afirmou que esta foi a primeira vez na história da ciência em que foi possível processar, diretamente das atividades cerebrais, imagens do que uma pessoa viu.”
Com o software criado pelos cientistas, eles conseguiram processar imagens vistas por pessoas ligadas a aparelhos de ressonância magnética. Isto significa que os cientistas estão tentando simular e ao mesmo tempo registrar o processo cognitivo que acontece entre o enxergar algo e poder identificá-lo no “vocabulário” de objetos, palavras, pessoas ou outras coisas físicas.
A importância desta descoberta vai além de um novo exame de neuroimagem. Trata-se da possibilidade de visualização de um processo cognitivo importante que é o pensamento. Pois quando pensamos estamos utilizando vários neurocircuitos ao mesmo tempo como a linguagem, a percepção, o ambiente (contextualização), e dependendo do pensamento e da inteligência individual, vários outros circuitos podem entrar em ação. Porém, resta ainda uma dúvida: será possível registrar da mesma maneira os sonhos ou mesmo as emoções, já que estes não lidam necessariamente com imagens tão concretas?

sábado, 13 de dezembro de 2008

MEMÓRIA E NUTRIÇÃO



Pegando o gancho da última postagem sobre a discussão abordando o tema da neuroética e do aperfeiçoamento cognitivo, achei interessante dar continuidade ao assunto usando como referência uma matéria do globo sobre memória e dietas.
“A dieta das proteínas pode prejudicar a memória. Uma pesquisa sugere que a falta de carboidratos interfere no funcionamento do cérebro mesmo em pouco tempo. Após uma semana seguindo a dieta que restringe radicalmente os carboidratos, os seguidores do regime submetidos a testes de memória tiveram resultados piores do que pessoas que também estavam de dieta, mas não retiraram pães, massas e frutas do cardápio.”
O estudo foi realizado por uma equipe de pesquisadores de psicologia cognitiva da Universidade de Tufts, nos Estados Unidos. A memória visual e espacial foi medida (antes, durante e depois da dieta) através de testes neuropsicológicos, em um grupo controle e no grupo experimental. Chegou-se a conclusão que houve uma diminuição destas memórias (o tempo de latência das respostas aumentou durante a dieta) com a dieta de Atkins, na qual se ingere pouco carboidrato.
A hipótese dos pesquisadores é de que os carboidratos se transformam em glicose (combustível essencial para o cérebro humano), enquanto as proteínas são metabolizadas como glicogênio. A glicose é considerada fundamental para um bom funcionamento cognitivo e em especial para a memória.
Voltando para o tema dos medicamentos usados para melhorar a performance cognitiva e fazendo um paralelo com esta pesquisa, o que podemos analisar? Em que devemos investir: numa alimentação mais voltada para as necessidades cerebrais ou no uso de drogas que aumentem nossa capacidade e rapidez cognitivas? Como a psicologia cognitiva deve se posicionar diante desta discussão?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

NEUROÉTICA 2



Uma das drogas reivindicadas para uso em pessoas saudáveis, além da ritalina, é uma droga chamada modafinil que trata de pessoas com fadiga ou que necessitam ficar acordadas por longo período de tempo (como médicos de plantão). Essa droga aumenta a capacidade da função executiva e do controle inibitório, também melhora a performance da memória de trabalho.
Todos nós sabemos que é possível obter melhora nas performances mentais através de recursos “naturais” como sono, alimentação e exercícios físicos. Além dos recursos artificiais como uma boa educação, cultura e acesso à algumas tecnologias (internet, por exemplo) também podem facilitar o aperfeiçoamento mental. Porém, o ponto que se coloca entre o mundo científico e o não-científico é a questão moral. Todos esses recursos citados não são invasivos ao organismo humano e exigem um esforço de cada um para chegar a algum resultado. Já este tipo de droga, se tomadas para aperfeiçoamento cognitivo, são invasivas e não exige muito esforço ”extra”, ela irá modificar momentaneamente algumas funções cognitivas, de maneira quase mágica.
O que os cientistas, como Gazzaniga (http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/456702a.html), respondem a essa questão é: porque não? Eles não consideram a intervenção medicamentosa para aperfeiçoamento cognitivo algo tão distinto da intervenção educacional e tecnológica. Pesquisas recentes têm identificado os benefícios neurais causados pelo sono, nutrição e exercícios, assim como da leitura e instrução. E no final, concluem que estes mecanismos de aperfeiçoamento mental são equivalentes ao uso de drogas para tal objetivo.
Os opositores a essa questão lançam argumentos que vão das questões pragmáticas até as filosóficas. Um deles é o fato dos medicamentos diminuírem o valor do esforço humano. Este argumento é bastante rejeitado de maneira geral, pelo fato de não ser isto que irá definir a capacidade humana, mas sim as escolhas individuais. Contudo existem três pontos mais polêmicos: o uso de medicamentos seria injusto, não-natural e suscetível ao abuso de drogas.
Será que, utilizando a fala de Roberto Lent, voltamos ao mito de Prometeu ou de Frankenstein? Ou melhor, será que nunca desistimos de nos recriar ou reinventar? No momento as drogas para potencializar a mente estão em pauta!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

NEUROÉTICA: POR QUE RESISTIMOS AO APERFEIÇOAMENTO COGNITIVO?



“Um manifesto assinado por pesquisadores de sete universidades líderes nos EUA e no Reino Unido pede que o uso de drogas com o fim de melhorar a inteligência seja regulamentado e, eventualmente, liberado. Em artigo ontem no site da revista "Nature" (www.nature.com), os acadêmicos argumentam que é preciso disciplinar o uso que pessoas saudáveis fazem de medicamentos como a Ritalina (metilfenidato)” (http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u476483.shtml)
Essa reportagem publicada na folha de São Paulo pelo jornalista Rafael Garcia traz a luz uma questão polêmica entre os cientistas, a sociedade e a “lei”. Por que nossa sociedade se mostra resistente ao uso de drogas para aperfeiçoamento mental, enquanto os cientistas afirmam não ser uma má idéia? Serão estas questões políticas, éticas, científicas, morais, ou até mesmo existenciais?
Roberto Lent, na palestra ministrada na PUC-RIO (www.nnce.org) com o título “Neuroética: o mito de Prometeu revisitado” abordou essa questão, a qual nos parece pertinente, dado o fato deste assunto estar em pauta na mídia e no mundo científico. Lent levanta a questão: porque aceitamos as drogas para o tratamento mental/cognitivo (como no caso da doença de Alzheimer) ou mesmo para uma melhor performance sexual em jovens (Viagra) e consideramos moralmente “errado” o uso delas para um aperfeiçoamento físico (doping) ou mental (ritalina para a memória e atenção, por exemplo)?
Ainda seguindo o raciocínio de Lent: no famoso caso citado por Damásio, o paciente Gage sofre de uma lesão no córtex pré-frontal causando danos a sua “moralidade”, ou seja, se sabemos que existe correspondência no cérebro para questões morais, porque não intervir cirurgicamente ou medicamentosamente em paciente psicopatas? Não seria um benefício para a sociedade? Por que não podemos modificar a estrutura da mente humana, se temos recursos para tal?
"Propomos ações que vão ajudar a sociedade a aceitar os benefícios do aprimoramento, acompanhadas de pesquisa apropriada e regulamento avançado", escrevem os cientistas. "Isso tem muito a oferecer para indivíduos e sociedade, e uma resposta apropriada por parte de todos deve incluir a disponibilização dos aprimoramentos acompanhada da gestão de riscos."
Talvez o que assuste tanto o ser humano quanto a essas questões seja a pergunta: qual é a essência humana (tendemos a pensar que está na mente)? Podemos nos reconstruir através do uso de medicamentos? Como será o ser humano daqui a algumas décadas dentro desta perspectiva?

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

HEMISFÉRIO DIRETO


Há um século atrás o hemisfério esquerdo (HE) era considerado dominante, pois além da localização da linguagem ele é considerado responsável pelo movimento voluntário. Contudo a partir da década de 40 do século 20, e pesquisas provenientes da segunda guerra mundial (lesões do hemisfério direito (HD)), houve um maior interesse no estudo deste hemisfério até então considerado mais passivo no cérebro humano. Foi Jackson (1942) quem deu o pontapé inicial, com a invenção de uma intervenção cirúrgica chamada splint brain, a qual possibilitava acesso independente às funções de cada hemisfério.
Muito se conhece a respeito do hemisfério esquerdo (HE), desde século passado vários pesquisadores investiram em estudos sobre as áreas cerebrais do lobo esquerdo do cérebro, um dos pesquisadores importantes foi Broca, com a descoberta da afasia motora (fala) uma das regiões importantes do HE referente à linguagem. Uma das hipóteses para a valorização do HE em detrimento do hemisfério direito (HD) foi a descoberta da localização da linguagem neste primeiro.
Atualmente, existem estudos a respeito das lesões no HD, alguns autores classificam o conjunto de sinais e sintomas observados após um acometimento neurológico no HD, como síndrome do HD – SHD. Segundo Fonseca, a SHD é, então, caracterizada por déficits nas funções cognitivas: atenção, percepção, memória, praxias, funções executivas, com a presença de anosognosia, heminegligência sensorial, prosopagnosia, alteração de memória visuo-espacial e de trabalho, dispraxia construtiva e disfunção executiva.
“Em relação ás especializações hemisféricas das funções cognitivas, há atualmente certo consenso na literatura. O HE é mais associado às habilidades de pensamento lingüístico, raciocínio analítico, memória verbal e produção e compreensão da linguagem. O HD, em contrapartida, é associado, às seguintes funções cognitivas: atenção, percepção, memória visuo-espacial,, esquema corporal, inteligência social e emocional, reconhecimento de expressões faciais e habilidades musicais.” (Myers, 2001 in Fonseca, 2006)
Como podemos analisar nos estudos atuais sobre a dicotomia entre os hemisférios cerebrais, o HD também atua de maneira ativa e essencial para o funcionamento cerebral global, pois a atenção e a percepção visual são funções cognitivas essenciais para nosso funcionamento cognitivo geral, inclusive influenciando a linguagem. Pode-se afirmar ainda que o HE é o hemisfério dominante do cérebro?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A METACOGNIÇÃO INTELIGENTE





Dando continuidade a última postagem, onde analisamos como um dos principais critérios sobre inteligência a metacognição (consciência ou reflexão sobre a própria inteligência). A partir deste ponto é possível pensar sobre os diversos conceitos de inteligência em culturas distintas. Pois afinal, se ser inteligente é poder analisar e pensar sobre os próprios pensamentos, idéias e conceitos... Por que não fazê-lo?
Seria interessante refletir o porquê de culturas distintas valorizarem “funções” ou “habilidades” tão diferentes para definir uma pessoa inteligente. Será que algumas culturas valorizam mais o “uso” (a prática daquela habilidade), enquanto outras se preocupam mais com a “capacidade”, mesmo que em potencial?
Explicando melhor... Algumas culturas consideradas primitivas (usando todas as ressalvas deste termo) preferem avaliar a inteligência de seus indivíduos em conseqüência do cargo que ele vai ocupar, como se fosse um RH contemporâneo. Portanto, em algumas tribos é mais interessante colocar como navegador, um indivíduo que saiba se guiar bem através da constelação do céu ou tenha algum conhecimento a respeito das leis naturais como vento, marés, etc. Se algum neuropsicólogo fosse avaliar hipoteticamente o mesmo sujeito através de testes neuropsicológicos, provavelmente o avaliaria como tendo uma boa percepção viso-espacial, uma boa memória semântica de longo prazo, talvez uma memória de trabalho e a função executiva eficientes. Porém, muito provavelmente, este avaliador daria um resultado geral do coeficiente de inteligência (QI) baixo para este indivíduo, caso ele não executasse bem todas outras funções cognitivas, como pensamento lógico-matemático, linguagem, criatividade e representação do conhecimento por exemplo. Já se ele fosse avaliado pelas teorias das inteligências múltiplas (Gardner), teria a inteligência viso-espacial bem acima da média. No entanto, segundo essa teoria, um jogador de futebol pode ter um escore alto em inteligência corporal, e por isso ser considerado um sujeito inteligente (nesta área específica de habilidade), pois como vimos é uma teoria construída em módulos.
Então: esse sujeito da tribo africana é inteligente afinal?
Imaginemos a situação oposta: Se Albert Einstein resolve ser “avaliado”para alguma trabalho numa tribo africana, será capaz de desenvolver alguma atividade que não seja intelectual? Será considerado inteligente pela tribo local e como eles fariam para avaliar esse constructo? Pelo uso ou pela capacidade? Façamos uma metacognição sobre o assunto...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O QUE É A INTELIGÊNCIA, AFINAL?



Esta é uma pergunta que muitos pesquisadores se fazem até hoje, tanto psicólogos, médicos, neurocientistas e até mesmo filósofos. Este conceito apareceu pela primeira vez na língua inglesa no século XII e até hoje levanta muitas questões. Podemos associar a inteligência somente ao pensamento lógico-abstrato? Relaciona-se com a noção de criatividade e resolução de problemas? E com a emoção? Será que os testes de inteligência utilizada atualmente cumprem realmente com a sua função? Quais os modelos de inteligência são mais fidedignos?
O conceito de inteligência é bastante controverso entre os autores do assunto, porém existem três pontos em que eles chegam a um acordo:
1. Capacidade de se adaptar ao ambiente, levando em consideração a experiência e os aprendizados anteriores.
2. A importância da metacognição, a possibilidade de se pensar, refletir ou ter consciência em ralação aos próprios pensamentos.
3. Considerar a relevância da cultura e do contexto em que vive aquela população.

Podemos afirmar, a partir da perspectiva da psicologia cognitiva, que a Inteligência é um conceito que “amarra”, une ou transita por todas (ou quase) as funções cognitivas: memória, atenção, criatividade, resolução de problemas, representação, percepção, linguagem, e o processamento de informação.
“Resumindo, inteligência é a capacidade para aprender a partir da experiência, usando processos metacognitivos para melhorar a aprendizagem, e a capacidade para adaptar-se ao ambiente circundantes, que pode exigir diferentes adaptações dentro de diferentes contextos sociais e culturais” (Stern Berg, 2005)
Ao longo da história da psicologia, temos vários modelos de inteligência, iniciando com Galton, no final do século 19 até Gardner e Weschler (contemporaneidade). Ambos criaram suas teorias: “Inteligências Múltiplas” (Gardner) e o modelo de “Inteligência Geral” (QI) e a criação de testes para crianças e adultos (WISC e WAIS – Weschler). Só para termos uma idéia, o primeiro (Galton) avaliava a inteligência a partir de parâmetros físicos (força física, discriminação de peso, por exemplo) e os últimos levam em consideração algumas tarefas (Weschler) e módulos (Gardner) diferentes entre si, Weschler trabalha com um escore geral, já Gardner utiliza a idéia de inteligência de forma modular, dando autonomia a cada uma.
Existe ainda uma riqueza enorme de pesquisas sobre inteligência aplicadas em culturas e contextos distintos, mostrando-nos que este é um constructo que deve ser analisado de diversos pontos de vistas, como o pensamento linear ocidental e o dialético oriental, mas isso é assunto para outra postagem!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

DISTRAÍVEL OU NÃO DISTRAÍVEL:EIS A QUESTÃO!


Uma pesquisa realizada por Foster e Lavie (http://scienceblogs.com/cognitivedaily/2008/11/some_people_are_more_distracti.php?utm_source=mostactive&utm_medium=link) demonstra que a atenção não é só uma função cognitiva, ela é também uma característica de personalidade. Isto significa que existem pessoas mais distraíveis e outras menos distraíveis. Se esta característica é um fruto da cultura, do ambiente, escolaridade já uma outra questão...
Segundo estes pesquisadores, existe uma pré-disposição (inata?) para algumas pessoas se distraírem mais facilmente que outras, ou seja, elas podem estar em ambientes tranqüilos ou agitados que sua atenção será menor do que de outras pessoas (que não são tão distraíveis). Isto seria uma característica individual. O ambiente, neste caso, é e não é determinante, pois se por um lado o ambiente silencioso seria potencialmente mais adequado para o “high” CFQ (mais distraíveis), ele também não determina que o indivíduo vai aumentar sua atenção, ele pode encantar-se com a mancha na parede... Por outro lado, o ambiente barulhento não faz que sua atenção piore em relação aos indivíduos “low” CFQ (menos distraíveis). A tabela abaixo mostra acima.

Portanto podemos pensar que os indivíduos distraíveis deviam fazer algum tipo de treinamento ou TCC (terapia cognitiva comportamental) para melhorar seu desempenho nas tarefas. Pois a aprendizagem não fica prejudicada com este tipo de comportamento? Será que os pesquisadores fazem alguma relação destes tipos de indivíduos com o TDAH? Penso que não, trata-se de outro componente.
O ambiente com baixa carga de estímulos não atrapalha o indivíduo low CFQ, porém NÃO AJUDA MUITO O SUJEITO COM High CFQ. Contudo se for necessário algum tipo de atenção seletiva em uma grande festa ou em um show (onde tenham muitos estímulos) o desempenho dos dois grupos será o mesmo: péssimo! É melhor aproveitar a festa ou o show!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Amor e ódio: iguais ou opostos?





Pesquisadores descobriram (http://www.independent.co.uk/news/science/scientists-prove-it-really-is-a-thin-line-between-love-and-hate-976901.html) haver uma linha muito tênue entre os sentimentos de amor romântico e o ódio. Um fato a princípio surpreendente, já que encaramos estes sentimentos como opostos. Serão mesmo lados contrários da mesma moeda?
A pesquisa demonstra através de imageamento cerebral que as áreas cerebrais atingidas por um sentimento (amor romântico) é muito semelhante às áreas atingidas pelo outro (ódio). Os estudos demonstram que esses sentimentos podem levar a atos e comportamentos bastante similares: gestos de heroísmo e crueldade. É mais ou menos fácil admitirmos nossa “crueldade” em relação a pessoas que temos algum tipo de desafeto. Mas quem nunca foi cruel nos seus sentimentos (ou pensamentos?) diante de uma rivalidade amorosa ou mesmo em relação ao objeto amado?
O sentimento de ódio é sempre visto como um “mal” que deve ser eliminado do vocabulário humano, porém muitas vezes um sentimento extremo de amor (a paixão) pode ser igualmente devastador , como o crime passional por exemplo.
As áreas do cérebro relacionadas a esses sentimentos são: a insula e o putâmen, ambos situados no sub-córtex do cérebro. A insula está ligada a respostas em relação a algum estímulo aflitivo e o putâmen está ligado a estímulos aversivos, reação de desprezo, assim como a ação e movimentos físico (preparação pra atos agressivos ou contexto de disputa). Basicamente, os pesquisadores definem essas áreas como detectoras de sinais aflitivos!
Bem, podemos inferir a partir deste estudo que o amor e o ódio não devem ser sentimentos opostos propriamente, dado ao grau de intensidade e “paixão”, além do potencial destrutivo que ambos possuem. Talvez possamos pensar no altruísmo como um contraste do amor e ódio. E também nos faz refletir sobre a idéia de que muitas vezes, os opostos falam da mesma coisa! (acho que esta frase define muito bem este experimento).

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

VISÃO, TÊNIS E ERROS PERCEPTUAIS



Uma pesquisa recente demonstrou que são comuns os erros perceptuais em juízes de jogo de tênis quando a bola cai naquele limite da linha, entre o dentro e fora da quadra de tênis. Segundo essa pesquisa há mais erros quando a bola foi percebida como “fora” da quadra do quando “dentro” desta. De 83 erros, 70 foram percebidos erroneamente como “fora” da quadra. Confira o link: http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7693396.stm
Porque isto acontece? Pois existe uma defasagem de centésimos de segundos entre a imagem recebida pela retina e a informação consciente desta, a decodificação de objetos no espaço é uma tarefa relativamente complexa, pois o cérebro tem que seguir não apenas a trajetória do objeto, mas também o movimento dos olhos relativos ao objeto é neste ponto que existe uma lentificação de processamento entre a imagem chegar aos olhos e a resposta consciente da localização da bola. Como a bola de tênis é muito rápida tem-se a ilusão do movimento ter sido ligeiramente maior (mais extenso) do que realmente é.
As maneiras de resolução para este problema seriam nada práticas: uma delas seria jogar tênis em quadras de argila, ficando a marca exata do lugar onde ela caiu... ou a invenção de um método de radar que conseguisse superar esse desafio.
O professor George Mather da universidade de Sussex acredita que esses erros podem ser não apenas por causa deste processamento cerebral, mas também podem estar relacionados ao estágio de decisão (tomada de decisão) para identificação da bola na linha. O que ele indaga que poder ser mais bem investigado em outras pesquisas seria a respeito do motivo pelo qual a nossa percepção erra mais pra uma visão “fora” do que “dentro” da quadra.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

É POSSÍVEL DIVIDIRMOS NOSSA ATENÇÃO ENTRE DUAS OU MAIS TAREFAS?


É POSSÍVEL DIVIDIRMOS NOSSA ATENÇÃO ENTRE DUAS OU MAIS TAREFAS?
Uma matéria no New York Times baseada nas pesquisas de Earl Miller, professor de neurociência do a Massachusetts Institute of Technology e David E. Meyer, professor de psicologia da University of Michigan, concordam entre si que a execução de duas ou mais tarefas simultaneamente é uma “ilusão”. Os pesquisadores relatam que é possível fazer, mas com perdas de atenção e qualidade, pois nosso cérebro tende a manter o foco em uma tarefa, normalmente a mais complexa. Mais detalhes: http://www.nytimes.com/2008/10/25/business/yourmoney/25shortcuts.html?pagewanted=1&_r=1&em.
Portanto realizar alguns tipos de tarefas ao mesmo tempo pode ser perigoso ou até mesmo fatal, como dirigir e escrever um texto (mensagens no celular) ou um médico cirurgião operar e falar no telefone, por exemplo. The RAC Foundation, a British nonprofit organization fizeram uma pesquisa mostrando que dirigir e escrever um texto ao mesmo tempo, leva a uma queda de velocidade (de processamento) em 35%, ou seja, a concentração do motorista fica 35% mais lenta (a mesma proporção dos motoristas que dirigem depois de beber)! Isso significa que medidas como a lei seca podem ter um embasamento no funcionamento cognitivo humano como prova a pesquisa acima.
Gloria Mark, professora de informática e co-autora das pesquisas afirma que no nosso cotidiano somos levados a interromper ou descontinuar nossas tarefas, seja por conta própria ou pelos outros. Isso, segundo a pesquisadora leva a uma maior rapidez, mas menor produção ou qualidade. Isto pode ser relacionado com o nosso “span” de atenção, o qual não é muito grande. Outro ponto não é tão intrínseco, mas extrínseco a mente: nossa cultura num certo sentido busca a rapidez e superficialidade das coisas.
Por isso eles sugerem: carpem diem!! E dêem a atenção que todos os momentos podem demandar...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

ESCALANDO A MENTE



Alpinistas de alta performance podem ter pequenos danos cerebrais causados por anoxia, durante escaladas em altitudes muito acima do nível do mar..., é o que dizem os cientistas italianos em suas pesquisas com alguns destes esportistas, em artigo publicado no Journal of neurology europeu (http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7676028.stm).
Os pesquisadores escanearam o cérebro de 9 alpinistas de alta performance, todos do sexo masculino, os quais chegaram ao topo de uma alta montanha sem o uso de oxigênio “extra”. Este grupo foi pareado com um “grupo-controle” (sujeitos da mesma idade e sexo, não-alpinistas). Mediu-se, através de MRI, se havia alguma doença ou dano neurológico.
Oito semanas depois... Quando os alpinistas retornaram de suas escaladas, o cérebro foi escaneado novamente e foi detectado uma “sutil” diferença na densidade e volume de massa cerebral, especialmente em duas áreas: trato piramidal esquerdo e giro angular. Ou seja, os cérebros dos alpinistas estavam levemente alterados em comparação ao “grupo-controle”.
Foram aplicados nestes alpinistas e no grupo controle, testes neuropsicológicos, avaliando: memória, planejamento, função executiva, entre outras funções executivas. Observou-se também um desempenho um pouco abaixo da média nesta pequena amostra da população de alpinistas de alta performance.
Os pesquisadores envolvidos na pesquisa acreditam não ser apenas uma única expedição responsável por este dano “sutil” no cérebro dos alpinistas, mas a repetição de algumas viagens, tornando o efeito acumulativo.
Esta notícia nos faz pensar sobre o custo/benefício entre alguns comportamentos humanos, e o risco, ou seja, mesmo estando conscientes de alguns riscos e danos, o ser humano prefere, muitas vezes, viver a aventura e a adrenalina de uma forte emoção. Podemos julgá-los por isso?

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

FORMULAÇÃO DE HIPÓTESES





Jake Joung escreve seu post num blog de neurociência (http://scienceblogs.com/purepedantry/2008/10/brain_activation_during_hypoth.php?utm_source=readerspicks&utm_medium=link), não sei nada sobre ele ou a respeito do seu blog, mas faço inferências sobre o assunto. Será que Jake é psicólogo, médico, ou outro tipo de cientista? Não sei, mas formulo a hipótese de que ele é um pesquisador em neurociências ou que está apenas fazendo blogs para seu orientador. Se minha hipótese está correta ou não é irrelevante, porém o fato de eu estar a formulando é o objeto de estudo desta pesquisa em questão. Vamos começar nossas formulações hipotéticas...
Kwon et al. se propuseram a scannear o cérebro de algumas pessoas durante tarefas de formulação de hipótese, então, enquanto eu estava imaginando coisas sobre ele e seu campo de estudo, meu cérebro poderia estar sendo mapeado para uma verificação de áreas cerebrais funcionais durante o processamento de meus pensamentos. Contudo houve mais sofisticação nas hipóteses dos pesquisadores, pois se medimos o funcionamento das áreas cerebrais com o método da fRMI durante uma formulação de hipótese, podemos cair no erro de estar medindo várias funções cognitivas juntas. Algumas maneiras dos cientistas resolverem este problema seria fazer um treinamento em formulação de hipóteses e comparar com um grupo não treinado (mas que faz a formulação de hipóteses usando seus próprios recursos). Outro caminho seria mapear pessoas com lesões cerebrais. Eles optaram pela primeira opção.
A proposta da pesquisa é: mapear o cérebro de 18 mulheres, destras, pós-graduadas e dividi-las em dois grupos:
1) Treinamento em formulações de hipóteses com algum grau de sofisticação. Como se eu fosse treinada para formular uma hipótese de que Jake (o autor do post que me inspirou) pudesse ser um cientista que pretende moldar o cérebro de algumas pessoas para torná-las mais hábeis em formulações de hipóteses.
2) Ausência de treinamento em formulação de hipóteses.
Os pesquisadores queriam descobrir:
· Quais áreas do cérebro são mais ativadas durante a formulação de hipóteses.
· Estas áreas estão mais funcionais no grupo que passou por treinamento em formulação de hipóteses?
Bem, qual grupo se sai melhor na tarefa? O grupo que foi treinado se sai melhor nas suas respostas, ou seja, respondem melhor às tarefas propostas.
Quanto ao imageamento cerebral, Kwon ET AL descobrem que o giro frontal superior e inferior (com predominância para o hemisfério esquerdo) são as áreas mais ativadas no grupo que foi treinado para formular hipóteses.

Jake e eu concordamos com a idéia de que existem alguns problemas nestas conclusões: o “n” muito baixo é um deles, outro foi o fato de ser uma amostra só de mulheres destras, o que pode mostrar certo enviezamento na pesquisa. Outro problema seria como termos a certeza destas áreas cerebrais serem exclusivas de formulação de hipóteses e não abranger o que chamamos de função executiva?
Os méritos do paper também são muitos: visualização de funções cognitivas utilizando fRMI “in vivo” e a cores: avaliação de performance e treino de tarefa ao mesmo tempo! Mais uma descoberta incrível: podemos treinar nossas capacidades de formular hipóteses e ficarmos melhores nesta tarefa!
Concluindo este longo post, vamos aprender com kwon e Jake a otimizar nossa plasticidade cerebral, usando cada vez mais (e com qualidade) a massa cinzenta que nos foi dada!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: UMA VISÃO PSICOLÓGICA


Finalmente fui assistir ao polêmico filme, inspirado no romance do escritor português José Saramago. E, como quase toda obra com algum nível de complexidade, cabem várias leituras e interpretações de ângulos distintos (pra usar uma palavra de referência visual) (poderia ser posições, de referência cinestésicas...). Podemos pensar em Foucault, Machado de Assis, Freud, Skinner, Deleuze/Guatari ou algum antropólogo contemporâneo. Mas, vou puxar a sardinha pro meu lado e escolher o ângulo que mais me interessa: o psicológico, e mais ainda com um foco na neurociência.
Um dos focos (pra continuar na linguagem visual) é óbvio: a própria visão. Sabemos que a visão é entre as vias perceptivas, a mais complexa e elaborada no ser humano, seu aparato fisiológico é de grande refinamento e sensibilidade em termos neurofisiológicos.
“O sentido da visão é proporcionado aos animais pela interação da luz com os receptores especializados que se encontram na retina. Esta é um “filme inteligente” situado dentro de um órgão - o olho - que otimiza a formação de imagens focalizadas e precisas do mundo exterior. O olho é uma câmera superautomática capaz de posicionar-se na direção do objeto de interesse, focalizá-lo precisamente e regular a sensibilidade do “filme” automaticamente de acordo com a iluminação do ambiente.” (Lent, 2005)
Além deste aspecto da visão (que, aliás, veio a calhar por estarmos falando de um filme), tem inúmeros outros, como por exemplo, a decodificação que nosso aparato perceptivo (retina, ou área occipital do córtex cerebral) faz dos estímulos ambientais estão muito relacionados com uma seleção de imagens, às vezes não percebemos (ou percebemos em demasia) algumas cores, profundidades e formas. Enfim, este tema é vastíssimo e para mais detalhes técnicos sobre a visão, indico: http://www.landeira.org/pubs/2008/Vision.pdf.
Então, fazendo um paralelo entre filme e livro (de mesmo nome), a leitura é como se fosse uma “visão cega” do filme, vamos construindo as imagens com nossa imaginação e em tempo particular. Da mesma forma que decodificamos os estímulos do ambiente, também podemos fazer isto com as imagens construídas em nossa mente: enxergamos o que queremos, omitimos, damos um maior brilho ou luminosidade a alguns objetos. Porém no filme isto não nos é permitido, a imagem nos é dada em tempo real. É outra perceptiva, também interessante, principalmente “os brancos” da cegueira branca. Será que a visão pertence mais à área cerebral do que a perceptual? Acredito que não, o filme nos diz que a visão é “real”, concreta, mas também subjetiva, metafórica. Uma não existe sem a outra.
Entretanto o filme me remeteu também a outros aspectos do humano. Como se aquele isolamento dos cegos pudesse ser um experimento comportamental de Skinner. Obviamente sem a intenção de tanta crueldade humana, apesar dela estar lá (como afirma Freud em O Mal estar da civilização). Porém como experimento teria que haver controle das variáveis, ambiente experimental e ética. Contudo, quantos elementos Saramago e Meireles nos fizeram enxergar a respeito do comportamento de seres humanos adultos, com escolaridade e classe social heterogênea, ambos os sexos, todos acometidos por algo em comum: a cegueira?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

“DO SINTOMA À SÍNDROME” PARTE 2


“Segundo a concepção psicopatológica, baseada na patologia geral e na escola Jasperiana, os cursos crônicos dos transtornos mentais podem ser de dois tipos: processo e desenvolvimento.” (Dalgalarrondo, 2000)
O processo está relacionado a uma transformação lenta e sutil da personalidade, de natureza endógena e aparece como uma conseqüência de alterações psicológicas incompreensíveis.
O desenvolvimento de um transtorno mental tem como referência a evolução psicologicamente compreensível de uma personalidade. Dentro desta perspectiva, podemos pensar que existem indivíduos com alguns desvios de personalidade ou outros não, determinando os transtornos de personalidade e as neuroses. É possível a observação de um sentido, uma trajetória mais “explícita” do desenvolvimento da doença.
Os fenômenos agudos ou subagudos classificam-se em crises ou ataques, episódios, reações vivenciais, fases e surtos.
A crise ou ataque caracteriza-se, geralmente, pelo surgimento e término abruptos, durante segundos, ou minutos, raramente horas.
O episódio tem geralmente a duração de dias até semanas. Tanto o termo crise quanto o termo episódio nada especificam sobre a natureza do fenômeno mórbido, ambos os termos servem para denominar apenas o aspecto temporal do fenômeno. É usado para situações onde não se tem condições de precisar a natureza do fenômeno mórbido.
Segundo Dalgalarrondo, a personalidade pré-mórbida e o os sinais pré-mórbidos são aqueles elementos identificados em períodos da vida que são anteriores ao surgimento da doença propriamente dita, normalmente na infância. Quando trata-se do início do transtorno, usa-se os termos sinais e sintomas prodrômicos, que representam de fato a fase precoce, inicial do adoecimento.
Estas afirmações nos ajudam a pensar que um transtorno ou uma doença mental não surgem repentinamente, existem alguns sinais e sintomas no desenvolvimento ou no processo da personalidade destes indivíduos, os quais aparecem de maneira muitas vezes insidiosa ou mesmo explícita ao longo da vida. Portanto quando criamos hipóteses em relação ao perfil neuropsicológico em alguns tipos de transtorno, estamos acreditando que existe o conceito de personalidade. Conceito inseparável da idéia de cultura, família, contexto, individualidade. Questões com temas intermináveis!

domingo, 5 de outubro de 2008

“DO SINTOMA À SÍNDROME”



Nenhuma síndrome ou transtorno mental surgem de um dia para o outro, até que se possa percebê-la como tal, alguns sintomas e sinais foram se desenvolvendo durante a vida do indivíduo. Dalgalarrondo (2000), guiando-se pelo modelo de Jaspers, situa esse processo em duas perceptivas fundamentais: os transfundos das vivências psicopatológicas e os sintomas emergentes. Estes dois aspectos se relacionam como se fosse uma imagem de figura (sintomas emergentes) e fundo (transfundos das vivencias psicopatológicas).
“Desde o século passado os clínicos têm percebido que nem todos os aspectos da manifestação de uma doença derivam diretamente do processo patológico de base. Nesta linha, o psicopatólogo alemão Karl Birnbaun (1878-1950) propôs que se discriminassem três fatores envolvidos na manifestação das doenças mentais.”
Os três fatores que Birnbaun citam são: o fator patogenético propriamente dito diz respeito à manifestação dos sintomas diretamente relacionada ao transtorno mental de base: o humor triste e o desanimo na depressão ou as alucinações auditivas e a percepção delirante na esquizofrenia, por exemplo. O fator patoplástico, que inclui manifestações relacionadas à personalidade pré-morbida do doente e aos padrões de comportamento relacionados à cultura de origem do paciente. Estes são fatores externos e prévios á doença, porém que terão alguma intervenção ou influencia sobre ela. Ainda existe o fator psicoplástico, o qual é relacionado com eventos e reações do indivíduo e do meio psicossocial decorrentes do adoecer, modos de reação aos conflitos familiares, às perdas sociais, e ocupacionais associadas ao episódio da doença.
Diante desta visão, podemos pensar nas doenças mentais como: processo, desenvolvimento, surto, reação, crise e episódio. Analisaremos estes pontos na próxima postagem.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

ESTUDANDO O TRANSTORNO DE PÂNICO


Acredito que os estudiosos da mente se perguntam se o Transtorno de pânico (TP) é uma doença da modernidade, ou se já existia em “outros tempos”, porém com diferenças de sintomas e nomenclatura. Quando exatamente surgiu esse tipo de transtorno? Essas são perguntas sem respostas definitivas.
O manual de psicopatologia DSM-IV classifica o TP como um transtorno de ansiedade que pode vir acompanhado ou não de outro sintoma chamado agorofobia. Para este manual, o TP tem que apresentar alguns critérios para definir sua classificação dentro deste grupo. Um dos critérios seria: o paciente ter tido pelo menos quatro dos treze sintomas de ataque de pânico, como: sensação de sufocamento, taquicardia, sudorese, desconforto abdominal, entre outros.
A CID-10 classifica o TP dentro de “outros transtornos de ansiedade”, e o coloca dentro do grupo das fobias, como um sub-componente da agorofobia. Isto significa que pode haver a agorofobia com transtorno de pânico ou sem transtorno de pânico, aqui o TP entra como secundário, ou seja, não é o sintoma principal.
Alguns autores também fazem uma associação do TP com algumas patologias mais antigas ligadas à ansiedade, como a neurose de angústia descrita por Freud em 1895.
A pertinência do assunto é pensarmos nas causa e desenvolvimento de uma doença que tem aumentado muito nos últimos tempos e aponta para uma angústia em forma. de ansiedade que talvez reflita os conflitos que nossa cultura ocidental contemporânea vivencia. Será que em outras culturas (com índice menor de stress) existe esse transtorno? Haverá diferença “quantitativa” de indivíduos com TP nas cidades urbanas e na área rural? Existe uma predisposição genética para a ansiedade?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A memória e o esquecimento




O neurocirurgião e pesquisador Scoville, famoso médico que operou o paciente H.M., percebeu que existia um centro neural para a memória: o hipocampo, pois foi justamente a cirurgia com H.M, que propiciou a percepção de que havia um local no cérebro onde as memórias ficavam armazenadas, contradizendo com a idéia de Karl Lashley de que esta função cognitiva estava “dispersa” por todo o cérebro, não havendo uma localização específica.
“Obviamente o hipocampo era o centro real das lembranças, pois, sem ele, H.M, foi entregue a um trecho do mais pálido presente. Scoville publicou suas descobertas desse experimento grandioso, porém remendado. Ele havia tocado no tecido da memória, que não era espiritual nem mítico em sua essência. A memória era o carne. Poderia ser apontada com precisão, como um país num mapa. Lá vive seu passado. Lá vive seu futuro. No cavalo marinho. Debaixo do recife de coral cortical.” (Slater)
Kandel foi um dos primeiros a realmente fornecer um modelo molecular de memória primitiva. Ele também foi pioneiro na explicação da passagem da memória de curto para longo prazo, afinal de contas, sabemos que H. M não se lembrava do tomou no seu café da manhã, mas reconhecia o rosto de sua mãe e outros fatos de seu passado, então como esse mecanismo acontecia? (ver postagem anterior).
Por outro lado, o excesso de memória também pode ser mais complicado do que simples, imaginem se não esquecemos nada? O esquecimento também faz parte dum processamento cognitivo saudável e porque não dizer do nosso mecanismo de memória? No caso de S., aquele paciente de 21 anos, que Luria estudou, tinha uma memória extraordinária, mas era incapaz de deduzir significados de qualquer coisa que lesse, tornando-o incapaz de reconhecer uma expressão facial ou um contexto mais metafórico.
Portanto, para termos uma boa memória, temos que esquecer, consolidar, evocar, enfim, deixar que as redes neurais se reorganizem seguindo o fluxo de nossas experiências, levando em consideração o passado, o presente e o futuro!

A memória, o esquecimento e a lesma do mar


(escultura de Mauro Andriole)

Slater, em seu livro “Mente e Cérebro”, aborda o tema da memória de maneira bastante peculiar e intrigante. Ela ressalta a necessidade e contribuição do conhecimento científico (e, segundo a autora, reducionista), assim como dos estudos com as lesmas do mar de Kandel, contudo faz críticas consistentes em relação à direção de algumas pesquisas (também científicas) sobre os mecanismos de memória quanto ao uso de medicamentos nesta área. É possível ou pertinente a comercialização da potencialização ou inibição de um “constructo cognitivo” como a memória?
A memória é uma das funções cognitivas que, em termos biológicos, se tem algum conhecimento neural, mas ela é também intrinsecamente construída de forma bem particular por cada ser humano. Apesar de sabermos as localizações cerebrais, as redes neurais e seus mecanismos sinápticos da memória, ela é formada pela subjetividade humana, esse filtro de seletividade dos fatos é calcado na nossa história de vida e perspectiva de futuro.
“Volumes de impressões, ruídos, sensações, interações acontecem conosco todos os dias e, se retivéssemos tudo isso, estaríamos num mar de confusão mental. Em vez disso, o que geralmente lembramos são impressões gerais de nosso passado: para mim é a casa do meu avô, (...). Mas, então, havia aquelas poucas memórias do passado que permanecem bem características, mesmo se incorretas.” Slater
Kandel acreditava que existia um mecanismo que propiciava a conversão de curto para longo prazo e, para pesquisar este mecanismo, retirou a parte central da aplísia (lesma do mar) e colocou apenas dois neurônios preservados em um meio de cultura. Em seguida, manipulou os neurônios de forma que “conversassem” um com o outro, de forma que o neurônio 1 desenvolveu conexões sinápticas com o neurônio 2.
Como podemos analisar nestes pequenos trechos, estudar a memória é estudar um mecanismo que se encontra entre o somático e o psíquico. Continuaremos com esse tema na próxima postagem.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DÉFICTS DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE E IMPULSIVIDADE: O TDA/H


O pediatra inglês Geoge still (1902), atribuía “os maus comportamentos” infantis a uma ausência de inibição dos impulsos, levando ás essas crianças, uma atitude desafiadora e agressiva. Contudo, Still acreditava que esses comportamentos eram causados por “defeitos no controle moral”, herdados geneticamente por seus pais, já que havia histórico (na maioria dos casos) de alcoolismo e depressão na família.
Com o passar do tempo, foram ocorrendo situações médicas/psicológico-comportamentais, que levaram esses diagnósticos comportamentais a uma tentativa de explicação biológica. No início a psiquiatria classificou esse déficit de lesão cerebral mínima e logo após de DCM (disfunção cerebral mínima). Mas foi a imprecisão desse termo, que sofreu espetacular disseminação no campo médico e entre leigos, a partir dos EUA, nos anos 60 e 70, que passou a se abrigar crianças com conduta hiperativa, desatenta, anti-social ou com problemas de aprendizagem.
Dando um salto para os dias de hoje, onde esse transtorno está classificado na DSM-IV e na CID-10 como o TDA/H, e sendo um transtorno com implicações biológicas e até hereditárias, o pesquisador Rossano Cabral Lima aponta para a diferença entre: correlações e causas biológicas do transtorno m questão. Muitos estudos demonstram correlações bioquímicas entre o TDA/H e circuitos neurais, ou seja, “déficits na fiação” de alguns circuitos. Porém essa constatação ainda não garante a causa do TDA/H. Muitas pesquisas ainda mostram dados contraditórios entre si, não tendo sido conclusões satisfatórias do ponto de vista científico. Lima também ressalta a atenção necessária para as variáveis ambientais que possam influenciar no TDA/H.
“Entretanto, a empresa de afirmar o TODA/H como entidade patológica sediada no cérebro e nos genes não se conforma com a minimização das determinações sociais, psicológicas ou educacionais no seu surgimento, tratando mesmo de reduzir tais fatores ambientais a origens genéticas.”
Um ponto importante a se pensar é: mesmo com todos os recursos atuais de imagens cerebrais, tecnologias, exames e pesquisas nestas áreas, ou seja, com alguma sofisticação tecnológica, ainda caímos na antiga discussão do inato e adquirido ou, melhor dizendo, de uma explicação biológica excluindo a explicação “social” e vice-versa! Será que avançamos muito neste tipo de pensamento?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E CINEMA




Qual o padrão ou modelo utilizado nos filmes que retratam a IA no cinema? Como os diretores destes filmes retratam o “funcionamento emocional” dos robôs? Neste artigo sobre este tema (http://www.overcomingbias.com/2008/09/points-of-depar.html#more), o autor sugere uma possível e interessante discussão sobre o assunto.
Explicando melhor:
Os filmes que abordam a questão da IA tendem a tratá-la sempre de um ponto de vista de um padrão de mente humana, isto é, de forma antropocêntrica. Estaria no inconsciente coletivo desses diretores que os robôs seguem um modelo de supressão emocional para torná-los “emocionaless”? Mas para que eles tenham essa supressão (ou repressão) emocional, supõe-se que exista a emoção propriamente dita, a qual é baseada nas emoções humanas. Todavia isso contradiz o pressuposto de que os robôs não sentem, apenas “pensam”, pois há sempre nos filmes uma referência às emoções.
“These mistakes seem to me to bear the signature of modeling an Artificial Intelligence as an emotionally repressed human.”
A psicologia cognitiva e a neurociência fazem uma distinção entre a IA pura (tentativa de fazer com que os computadores demonstrem desempenho cognitivo inteligente, independentemente de o processo se assemelhar ao processamento cognitivo humano) e a simulação (tentativa de fazer com que computadores simulem o desempenho cognitivo humano em diversas tarefas). Nas simulações, David Marr, por meio de computações detalhadas, tentou simular a percepção visual humana e propôs uma teoria da percepção visual baseadas em seus modelos de computadores. Na IA Pura, vários programas de IA foram criados que podem demonstrar perícia (Por exemplo, jogar xadrez), mas esses programas provavelmente resolvem problemas utilizando-se de processos distintos daqueles empregados por peritos humanos. Em qual desses modelos os diretores de IA no cinema, estão se inspirando? Ou não estão pensando no assunto?
“Which all goes to illustrate yet another fallacy of anthropomorphism - treating humans as your point of departure, modeling a mind as a human plus a set of differences.”
Será possível para nós humanos, pensarmos verdadeiramente de maneira não-antropocêntrica?
Enfim, esse é um assunto que nos possibilita uma infinidade de discussões, sob ângulos bem diferentes, dada a natureza do assunto (IA, Cinema, Mente, Psicologia), mas no momento ficaremos com esses pontos para reflexão.

sábado, 13 de setembro de 2008

PESQUISAS COM ECONOMISTAS



Uma pesquisa realizada com economistas (http://www.economist.com/blogs/freeexchange/2008/09/dismal_scientists.cfm) , demonstrou uma particularidade da profissão:economistas preferem investimentos pessoais baseados em modelos “auto-centrados”, isto é sempre visando o interesse próprio.
Neste experimento foi testado um “jogo”, baseado nas teorias dos jogos, onde se concluiu que as pessoas (49%) arriscaram nas contas públicas, e outra (51%) preferiram as contas privadas. No Primeiro caso, o valor investido no final é compartilhado e no segundo caso, todo investimento é devolvido para o investidor. Portanto podemos perceber uma alta percentagem na opção mais ousada, onde existe um grau maior de risco e mais “democrático”.
Quando o experimento foi repetido com um grupo ( uma amostra) de economistas, os resultados mudaram significativamente. Os grupos de economistas investiriam 80% no segundo caso, ou seja, no retorno total dos valores investidos, eles não arriscam! Apesar de aparentemente serem pessoas que defendam alguns conceitos econômicos mais liberalistas ou democráticos....
Podemos pensar que a teoria é bem distinta da prática. Seria interesse pesquisarmos outros perfis profissionais em relação a tomada de decisão.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DA ATENÇÃO


Nesta postagem, além de rever alguns conceitos teóricos, vamos estudar alguns testes neuropsicológicos para uma avaliação da atenção de um ponto de vista da Neuropsicologia.
A avaliação da atenção será direcionada para: seletividade (Foco), sustentação (manter o foco), alternância (mudar o foco) e divisão (focar em dois contextos distintos). Portanto, nos testes neuropsicológicos existem maneiras de se medir estes “tipos” de atenção.
Segundo Coutinho, a atenção é sempre modulada pelo interesse e pela necessidade em determinadas tarefas A atenção tem curso flutuante tanto em indivíduos normais como em comprometidos. Raramente a desatenção está presente em todas as ocasiões. Os testes curtos de atenção nem sempre são sensíveis para identificar déficits atencionais e alguns deles medem tanto a capacidade do examinando quanto do examinador. As principais causas de déficits atencionais são: TDAH, depressão, fármacos, seqüelas de TCE, esquizofrenia.
Nos testes de avaliação da atenção é importante, medimos:
A seletividade e a sustentação: para isso podemos usar o teste do cancelamento, o Tavis-3 e o stroop.
A amplitude (quantidade de material que pode ser processado de uma única vez) pode ser medida através do span de dígitos, span de palavras, span de posições espaciais (Corsi, Finger, Windows).
O tempo de reação deve ser medido informalmente e mensurado sempre que possível (Tavis-3, CTP).
A alternância e divisão envolvem a capacidade de alternar continuamente conceitos/ estímulos distintos (trilhas-parte B, Tavis-3, digit symbol).
Existem alguns testes que são altamente dependentes da atenção: aritmética, testes das fichas, substituição de dígitos/símbolos, testes que envolvem percepção visual de detalhes e testes de memória. A atenção está bastante relacionada com a percepção (estímulos), com a memória (principalmente de trabalho), compreensão (foco/consciência) e com a função executiva (resposta/planejamento). Portanto, podemos inferir que a atenção nos acompanha em quase todos os processos cognitivos e alguns pesquisadores não a mede isoladamente.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

FILTRO DE ATENÇÃO SELETIVA



SEGUNDO STERNBERG (2007), a atenção seletiva pode ser de dois tipos: filtro ou gargalo. Ao longo dos anos foram sendo criados vários modelos para atenção. Todos os pesquisadores concordam que a atenção é seletiva em sua essência, seria impossível, prestarmos atenção conscientemente em todos os estímulos ao mesmo tempo. Como vimos na ultima postagem, ela pode ser consciente ou não-consciente. Os pesquisadores vão discordar em relação ao “momento”onde é feita esta filtragem.
O primeiro modelo sobre a atenção seletiva, foi pensado por Broadbent (1958). Para este pesquisador filtramos nossa informação imediatamente após registrá-la em nível sensorial. Ele acreditava que múltiplos canais de entrada de dados sensoriais chegam ao processo de percepção, atribuindo sentido as nossas sensações. Podem passar pelo filtro, além dos estímulos-alvos, outros com características sensoriais distintas ( visão, tato, audição, olfato, pois estes não seriam estímulos competitivos entre si), porém outros estímulos concorrentes ou não relevantes são eliminados da nossa atenção.
Mais tarde Moray (1960), sugeriu que o modelo anterior (Broadbent) estava errado. Moray concluiu que nesse “filtro” passam mensagens “poderosas” e destacadas, como escutar o próprio nome, por exemplo. Ou seja, segundo este segundo modelo, o filtro seletivo bloqueia a informação a nível sensorial, contudo algumas mensagens muito destacadas ultrapassam este mecanismo de filtragem.
Podemos pensar a partir destes modelos que não existe uma rigidez em relação à atenção, pois ela é multimodal.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

PRESTANDO ATENÇÃO NA ATENÇÃO





“A atenção é um processo psíquico que concentra a atividade mental sobre determinado ponto, traduzindo um esforço mental. É resultado de uma atividade deliberada e consciente do indivíduo - foco da consciência – a fim de inserir profundamente nossa atividade no real.”
“A atenção pode ser definida como a direção da consciência, o estado de concentração da atividade mental sobre determinado objeto” (Cuvillier, 1937)
A atenção é uma função cognitiva que deve ser levada em consideração na avaliação de testes neuropsicológicos, diagnósticos psicológicos e psiquiátricos. Pois quando ela está alterada, podemos perceber um déficit nas funções executivas, no planejamento de tarefas, na concentração e realização de tarefas. É importante ressaltar que não devemos avaliar atenção separadamente para se chegar a um diagnóstico, ela deve ser avaliada num conjunto (bateria de testes, por exemplo) ou como um item da súmula (na anamnese psiquiátrica, por exemplo).
Muitos profissionais na área da saúde estudam a atenção, portanto, quando lemos um estudo sobre este tema, é interessante avaliar qual o foco está sendo dado a ele, se global ou específico, se qualitativo ou quantitativo, ou ainda, se clínico ou “experimental”.
Na psicologia cognitiva, onde a atenção é avaliada em uma bateria de testes, divide-se a atenção em alguns tipos:
· Atenção seletiva; Atenção dividida; Atenção vigilante, atenção com sondagem.
· Atenção consciente (atenção seletiva, por exemplo) ou atenção sem uso da consciência (atenção tipo habituação ou tipo priming).
Já numa visão de um diagnóstico psiquiátrico a atenção é vista globalmente, como uma função cognitiva que pode ou não estar no centro da consciência:
Hipoprosexia (atenção rebaixada quantitativamente)).
Hiperprosexia (atenção aumentada quantitativamente).
Euprosexia (sem alteração da atenção).
Atenção hipervigilante (estado de alerta, observação qualitativa).
Atenção hipovigilante (estado de concentração, observação qualitativa).

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

APRENDIZAGEM E MEMÓRIA OU TEMPO = APRENDIZADO



A aprendizagem e a memória nos adultos dependem das conexões e “desconexões” sinápticas que ocorrem a todo momento no nosso cérebro. Cientistas do instituto de pesquisa em Neurobiologia Max Planck (http://www.physorg.com/news138377586.html), demonstram porque isto ocorre de forma rápida, resultando em agilidade de pensamento.
As sinapses neurais ocorrem de maneira dinâmica num processo de construção (durante novos aprendizados), reconstrução (reforço de redes já construídas ou memorização) e “contatos sinápticos incompletos” (são os links que não sao efetivados, não se forma um circuito, são os esquecimentos, por exemplo) entre as conexões neurais. Nosso cérebro faz muitas sinapses ao mesmo tempo, mas nem todas são utilizadas realmente, esses estudos tentam mostrar como o cérebro pode economizar tempo e energia para que nossa aprendizagem não seja muito lenta. O cérebro humano é o órgão do corpo que mais utiliza energia, portanto ele precisa também aproveitá-la, isto é feito através das interconexões entre as células vizinhas em determinadas vias. Se essas conexões são “quebradas” por algum motivo, o tempo e a energia que se gasta para realizar a mesma tarefa é muito maior. Atualmente sabe-se que um neurônio novo vai se comunicar com alguma via já existente como forma de economizar tempo e energia, porém cada sinapse leva em média dois dias para consolidar completamente aquela conexão. Portanto os autores concluem, que se cada célula nova tivesse que aprender do "zero”, gastaríamos muito mais tempo no processo de aprendizagem.
Estes pesquisadores descobriram que existe uma maneira de troca de informação entre as células nervosas novas e antigas: elas usam o canal de cálcio para fazer essa transmissão. Somente quando existe consolidação da informação é que a sinapse é realizada, ou seja, se for de longo prazo, aumentando assim a economia de energia. No final das contas, nosso cérebro é capitalista: quanto mais tempo economizado: mais aprendizado é realizado!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

MEMÓRIA



Novas pesquisas demonstram que falsas memórias afetam o comportamento. Pesquisadores da universidade de Washington (http://www.physorg.com/news138375512.html) realizaram experimentos onde sugestionaram algumas memórias falsas, isto é, as pessoas foram levadas a acreditar em fatos irreais sobre sua infância e posteriormente observou-se que esta memória teve um impacto significativo sobre o seu comportamento atual.
Esse fenômeno: a possibilidade de se “inventar memórias” é também conhecido em algumas doenças psiquiátricas e neurológicas como confabulação. Quando o paciente sofre déficit de memória retrógrada ou anterógrada, pode substituir aquela lacuna por fatos que não são verdadeiros. Neste caso é um mecanismo de compensação do indivíduo para compensar uma falha na sua cognição.
A proposta desta pesquisa, porém é outra: inserir memórias que não existiram para poder manipular comportamentos inadequados como a obesidade, uso de drogas, abusos sexuais, entre outros. A idéia neste caso seria usar este tipo de mecanismo como uma maneira terapêutica para diminuir os efeitos dos traumas e/ou crenças disfuncionais a respeitos de alguns comportamentos e pensamentos.
Isto nos faz questionar uma das premissas principais da psicanálise: o trauma como um mecanismo inconsciente (memória negativa) determinando o comportamento do sujeito ao longo de sua vida. É obvia a impossibilidade de se interferir na experiência, no fato traumático em si, porém, se a memória é inconsciente, e segundo os psicanalistas, ela é metafísica, não podemos usá-la a nosso favor? Questão a se pensar...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

NO CLIMA DAS OLIMPÍADAS: CÉREBRO E BASQUETE


Estudos com jogadores de basquete (http://www.nature.com/neuro/journal/vaop/ncurrent/abs/nn.2182.html), demonstraram que eles têm uma maior e mais acurada capacidade (em relação a outros profissionais como treinadores ou escritores) de detectar quando uma jogada será feita, Isto é, quando ele vai passar a bola para outro atleta ou mesmo realizar uma “cesta”.
Uma pesquisa foi realizada com 10 jogadores de basquetes profissionais, 10 treinadores e 10 escritores/jornalistas enquanto assistiam a um jogo de basquete. Durante o jogo, foram mensuradas as áreas cerebrais envolvidas de cada sujeito experimental. E observou-se que os jogadores do esporte em questão detectam as jogadas antes de elas serem realizadas (conseguem prevê-las) levando a conclusão de que eles têm uma maior capacidade de leitura corporal de outros
O fato dos jogadores de basquete ter essa facilidade na percepção das jogadas se deve a dois motivos principais:
1) Eles têm maior capacidade de ler os movimentos (cinestesia) do corpo de outro jogador por ter sua área cortical viso- motora, além da área motora propriamente dita, mais desenvolvida do que pessoas que não praticam tal esporte.
2) Eles usam o mecanismo de neurônio-espelho para detectar tais movimentos de forma antecipada.
Estes resultados nos levam a inferir que este tipo de mecanismo perceptivo-comportamental também deva existir em outras profissões que lidem com antecipação de movimentos e/ou comportamento.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

COGNIÇÃO E DESENVOLVIMENTO


“O desenvolvimento cognitivo-perceptivo funciona como uma plataforma de lançamentos bem projetados, da qual decolariam outros aspectos do desenvolvimento cognitivo”. (Palácius, 2002)
A percepção está na base do desenvolvimento cognitivo. A percepção está presente em todo o desenvolvimento humano, e tem uma grande importância nos primeiros meses de vida. Principalmente os sentidos da visão, audição, gustação, olfato e tato. Os bebês precisam dela para crescer e se relacionar com o mundo. A cognição da criança acompanha o seu desenvolvimento neurológico e maturação do sistema nervoso, gradativamente, aumenta-se a capacidade de percepção de estímulos complexos. A linguagem, por exemplo, é uma aquisição posterior no desenvolvimento cognitivo e conseqüentemente na vida da criança.
A estimulação que as crianças recebem é polimodal, pois chega ao cérebro através de diferentes modalidades sensoriais. A percepção da criança é também intermodal, pois ela é cada vez mais capaz de integrar as informações sobre a realidade que chegam através das diferentes modalidades sensoriais.
“O exemplo de percepção é, pois, bastante adequado para mostrar como os bebês humanos estão geneticamente orientados à interação social. Sobre a base dessa predisposição, as pessoas que cercam a criança, que cuidam dela e a educam são responsáveis por preencher de conteúdo todo o conjunto de potencialidades adicionais com as quais as crianças já estão equipadas no momento do seu nascimento.” (Palácius, 2002)
Segundo Sternberg, o desenvolvimento cognitivo envolve mudanças qualitativas no pensamento, tanto quanto mudanças quantitativas, tais como o aumento de conhecimento e capacidade. A interação entre o ambiente e a predisposição genética já tem seu início nos primeiros meses de vida, pois bebês muito jovens parecem ser predispostos para prestar atenção a estímulos inéditos, porém alguns vão explorar mais aquele estimulo, enquanto outros não vão se concentrar muito neles. Esta observação levou a alguns pesquisadores à hipótese de que os bebes que preferem com mais vigor algum grau de novidade são mais inteligentes do que os que fazem com menos vigor.
OBS: Esta postagem é dedicada à minha amiga Emmy.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

GENE PARA A ANSIEDADE



Outra reportagem recente publicada no jornal on-line “o Globo” (http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mat/2008/08/11/estudo_alemao_identifica_gene_da_ansiedade-547672547.asp) foi sobre a descoberta do gene para a ansiedade. A notícia mostra pesquisas desenvolvidas sobre o assunto, onde defende que a ansiedade e seus transtornos são transmitidos por carga genética.
O estudo aponta para um aumento significativo de transtornos mentais de ansiedade, como o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), o transtorno de Pânico, trantorno de ansiedade generalizada e o Transtorno de estresse pós-traumático. Isto se deve a uma mutação genética para o gene da ansiedade, ou seja, algumas pessoas teriam um limiar menor para suportar os estímulos desagradáveis, como ruído alto por exemplo. Neste caso, as pessoas que teriam este alto nível de ansiedade, teriam o gene (para a ansiedade) duplicado no seu DNA. Segundo os cientistas, as pessoas que herdaram o gene duplicado, tem um aumento do neurotransmissor dopamina no cérebro, e isso justifica uma maior facilidade de fixação das sensações desagradáveis.
Segundo o artigo original, existe também um déficit na memória de trabalho e do controle cognitivo (e na eficiência do córtex pré-frontal), em pacientes com níveis altos de dopamina, em estudos utilizando neuroimagem. Isto demonstra a relevância desta investigação na prevenção de doenças mentais para os transtornos de ansiedade.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

NEUROECONOMIA



Uma reportagem o jornal “O globo” do dia 12/08/08 (http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mulher/mat/2008/08/11/hormonios_femininos_podem_influenciar_decisoes_financeiras_da_mulher-547676772.asp), relata um estudo sobre a influência hormonal nos processos de tomada de decisão. O estudo defende que nossas decisões não são apenas motivadas pelo “desejo” ou pela vontade. Podem existir substratos neurais na base das nossas ações mais cotidianas como: comprar um vestido caro ou guardar aquele dinheiro para uma futura viagem, investimento de ações ou até mesmo comprar carne ou ovos, para uma população de baixa renda.
Segundo este estudo, nossos impulsos ou inibições na área financeira podem ser influenciados pelos hormônios. Mulheres ficariam mais controladas diante de seus cartões de crédito quando aumenta o nível de estrogênio (período pré-menstrual), enquanto homens que receberam uma dose extra de ocitocina (hormônio produzido na amamentação) ficaram mais relaxados e tranqüilos com seus clientes ou mais agressivos e corajosos quando estão com o nível alto de testosterona (normalmente pela manhã).
Estes dados estão sendo utilizados por alguns pesquisadores psicólogos ou economistas no sentido de orientar as pessoas, fazendo uma “consultoria econômica”, quanto a sua pré-disposição hormonal pra riscos. Este estudo se bem conduzido pode contribuir para a psicologia cognitiva e neurociências. Podemos até nos aproximar do estudo sobre a moralidade e tomadas de decisão defendido por Antônio Damásio (http://neconomia.blogspot.com/2005_10_01_archive.html). Porém se a pesquisa for mal conduzida nos aproximamos de algo parecido com a astrologia, onde os planetas regem nosso comportamento (aqui no caso seriam os hormônios) e então perdemos o rumo do navio chamado ciência, onde é necessário premissas, coleta de dados, falsificação das hipóteses e teoria.
“Praticamente qualquer um pode-se sentar em uma poltrona e propor uma teoria, mas a ciência requer a testagem empírica dessas teorias. Sem essas testagens, as teorias permanecem meramente especulativas, de forma que teorias e dados dependem entre si”. (Sternberg, 2007)
OBS: Esta postagem é dedicada ao Paulo Moreira, economista preferido e incentivador das neurociências!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A PSICOLOGIA COGNITIVA E A NATUREZA DO INSIGHT




Como vimos na última postagem, a psicologia cognitiva interessa-se em investigar o como pensamos, como se dá a aprendizagem e o processamento cognitivo. O fenômeno do insight por sua vez, é um dos menos conhecidos nesta área da psicologia/neurociência. A experiência do insight é muitas vezes associada com algo “divino”ou misterioso. Alguns neurocientistas estão tentando desmistificar este pensamento.
Os insights ocorrem normalmente quando menos se espera, ele não ocorre quando estamos estudando, ou num momento de intensa concentração mental, segundo o neurocientista Jonah Lehrer (http://scienceblogs.com/cortex/). Para este estudioso, as maiores descobertas foram feitas por cientistas em momentos de “relaxamento” ou de alguma atividade não relacionada ao seu campo de estudo. Isto não significa que não seja necessário o estudo, como vimos anteriormente, o conhecimento de superdotados e pródigos só se manifesta de maneira brilhante com muito esforço e trabalho.
“Para se chegar a insights, decisões, resoluções de problemas, precisa-se muitas vezes de distrair a mente com outras atividades. Como montar um quebra-cabeça, jogar paciência ou escrever uma poesia. Pois estas atividades abrem um campo para que novas descobertas possam surgir, isto é, idéias e pensamentos que não foram elaborados anteriormente. Para que a experiência do insight ocorra é necessário que haja uma “quebra de pensamento” para que em seguida ocorra a integração de algo novo (mental block).
Jung-Beeman, neurocientista cognitivo declara que o momento do insight vem junto com o sentimento de certeza daquela idéia. O cientista sente que há dúvidas a respeito daquela descoberta. Segundo esta perspectiva foi assim que Newton teve a certeza sobre a teoria da gravidade quando observou a queda da maçã no seu passeio pelo campo!
Alguns artigos (http://scienceblogs.com/cortex/) descrevem possíveis diferenças entre o HD e o HE na experiência do insight e apontam para a predominância do HD neste fenômeno assim como o papel do córtex pré-frontal como um maestro do cérebro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

PSICOLOGIA COGNITIVA




O que é a Psicologia cognitiva? De uma maneira geral, a psicologia cognitiva se propõe a investigar as cognições. Isto significa estudar o como as pessoas apreendem conhecimento do mundo: como pensam, aprendem, lembra-se de algo. Segundo Sternberg (2007), a psicologia cognitiva seria: como os cientistas pensam sobre como as pessoas pensam? E os estudantes de psicologia vão partir do pressuposto que: as pessoas pensam sobre o que os cientistas pensam em relação a como as pessoas pensam.
Enfim, os psicólogos cognitivos irão pesquisar o modo como as pessoas percebem, lembram, esquecem, aprendem, se comunicam. Atualmente são desenvolvidas inúmeras pesquisas na área da cognição, muito se estuda a respeito dos vários tipos de memória, linguagem, consciência, aprendizagem, entre outros processos cognitivos. A neurociência também é u campo que investiga as cognições, utilizando-se da psicologia experimental, e testes neuropsicológicos, como temos visto nas últimas postagens.
Muitas contribuições de outras áreas do conhecimento puderam influenciar no estudo da psicologia cognitiva. Uma delas foi a relação com a tecnologia e com a engenharia e computação. O teste de Turing foi criado por ele mesmo (Turing, 1950), numa tentativa de fazer uma relação entre o pensamento humano (cérebro) e o processamento das informações das máquinas. O teste de Turing seria quando uma programação de computador fosse possível de ser indistinguível, por seres humanos, do resultado de testes com seres humanos. Temos referência a esta idéia no belo e interessante filme Blade Runner, assim como no AI, para citar apenas dois.
Bem, podemos fazer inferências sobre a complexidade desse instigante assunto, pois até hoje não se conseguiu, em termos de máquinas, chegar à imitação de processamento do cérebro humano. Talvez por isso, seja possível afirmar que apesar de vasto conhecimento sobre a cognição humana, ainda há muito o que caminhar...e a psicologia cognitiva é um dos principais pilares nesta jornada!

terça-feira, 29 de julho de 2008

100% DE SUOR!!!



Pesquisas com experts e/ou prodígios demonstraram que o desempenho deles é devido a um alto grau de treinamento e esforço, ou seja, 100% de suor e lágrimas! A diferença entre os experts e os sujeitos adultos normais não são imutáveis, isto é, não é devido à presença ou ausência de determinados genes para habilidades específicas. Isto significa dizer que não existe diferença genética entre os experts e as outras pessoas, mas sim um treinamento precoce e árduo! “Estas diferenças refletem um longo período de esforço para se executar as performances.”
Erikson (http://scienceblogs.com/cortex/) estima que sejam aproximadamente 10.000 horas de “prática deliberada” para que essas pessoas tornem-se um “world class expert”.
Esta idéia é contraditória com a nossa intuição sobre o assunto. Leher (http://scienceblogs.com/cortex/) defende que nosso pensamento ainda nos leva a acreditar que o talento é algo “dado”, presenteado, quase metafísico. Contudo não há evidências até o momento, afirmando que os superdotados ou experts nascem com cérebros distintos da maioria das pessoas. De fato a média do QI deles (no auge de suas performances) é equivalente a média do QI de estudantes em idades correspondentes.
Podemos afirmar que suas habilidades são absolutamente específicas e por isso estão confinadas a um domínio cognitivo particular? O psicólogo cognitivo Howard Gardner (http://cursoseducacaoadistancia.com.br/teorias_aplicadas/cursos_a_distancia_howard_gardner.htm) diria que em parte sim, em parte não. Segundo este autor existem inteligências múltiplas que confirmam a idéia de que as habilidades são bem específicas em sua essência (isto reforça a idéia de especialização cerebral). Os tipos de inteligência são: lógica-matemática, musical, lingüística, pessoal e corporal. Porém para Gardner essas habilidades são inatas, portanto para ele seria impossível uma pessoa com pouca habilidade com instrumentos musicais ou “inteligência” musical se tornar um pequeno Mozart, por mais treino que se submeta alguma criança.
O ponto importante de analisarmos é: existe uma pré disposição para habilidades específicas ou seria algo da ordem do treino e do comportamento? Será que voltamos ao antigo questionamento dialético filosófico, onde temos Platão (racionalismo) X Aristóteles (empirismo) ou Descartes (racionalismo/cogito)X Locke (empirismo/tabula rasa)? (Sternberg, 2008).
Em outras palavras: é possível criar talentos especiais (superdotados) através do treino e do esforço, sem a tal “inspiração”? Pode-se chegar a um alto nível de desempenho sem uma habilidade inata para tal?
A única resposta que temos até o momento é: há controvérsias!!