segunda-feira, 11 de maio de 2009

TAXISTAS DE LONDRES: DIFERENÇA NO HIPOCAMPO





Pesquisadores ingleses resolveram investigar sobre a capacidade de memorização de taxistas ingleses. Por quê? Londres é uma cidade com mais de 2000 ruas e os taxistas passam por um rígido exame antes de adquirirem suas habilitações. Como um dos principais centros da memória no cérebro é o hipocampo, comparou-se esta estrutura no grupo de taxistas e no grupo controle.
Foram selecionados por Maguire e sua equipe, 16 taxistas do sexo masculino e 50 motoristas (grupo controle) também do sexo masculino. Observaram-se os cérebros dos dois grupos através de ressonância magnética. A decisão de se utilizar uma amostra masculina é devido ao fato de que existem diferenças entre o tamanho de algumas estruturas cerebrais entre os gêneros.
O que eles acharam? Uma diferença na estrutura, somente na parte posterior do hipocampo (responsável pela utilização de mapas adquiridos), não houve diferença no volume total do hipocampo. Isto é, os taxistas têm suas estruturas hipocampais posteriores um pouco maiores do que os motoristas não-taxistas analisados nesta amostra. No entanto os motoristas não-taxistas têm a parte anterior de seus hipocampos (responsável pela aquisição de novos mapas) aumentada em relação aos taxistas.
Interessante, não? Esta pesquisa mostra que talvez haja algumas estruturas cerebrais possam “se esgotar” com o uso. Ou seja, pode ser que haja um limite para se guardar informações no hipocampo e nos taxistas este limite parece estar no máximo, pois a parte anterior de seus hipocampos é menor do que a dos não-taxistas. Além disto, a pesquisa confirma de alguma forma a idéia da frenologia (especialização cerebral), mantendo algumas críticas à esta teoria, pois afinal de contas, Gall vivia no século XIX e muitas descobertas nesta área de conhecimento foram feitas.
Porém, a pesquisa nos coloca um ponto para pensar: o hipocampo posterior dos taxistas é maior como causa (já era assim quando nasceram) ou conseqüência (ficaram maiores pelo uso)??

quinta-feira, 7 de maio de 2009

TEORIA DOS SONHOS, SEGUNDO A NEUROCIêNCIA


Freud e Jung foram os psicanalistas que mais exploraram o temas dos sonhos. Para eles, os sonhos são desejos inconscientes reprimidos pelo ego, podem ser considerados também reminiscências dos acontecimentos diários (Freud). Outra explicação ainda é de que os sonhos são símbolos arquetípicos que estejam relacionados com a história de vida de cada pessoa (Jung). O fato é que para a teoria psicanalítica os sonhos são sempre objeto de interpretação simbólica e subjetiva.
Pode até ser que os autores acima estejam certos, mas isso não contradiz a leitura contemporânea dos sonhos a partir de estudos da neurociência e da neuropsicanálise.
Suzana Herculano e Robert Lent escrevem sobre o assunto e são categóricos: todos os mamíferos (e algumas aves) sonham. Isto é fato. Mas por que muitas pessoas nunca se lembram de seus sonhos? A resposta está relacionada aos vários circuitos cerebrais que regulam os sonhos, entre eles, o sono e a vigília e mecanismos da memória.
Durante a vigília nosso cérebro está imerso com duas substâncias importantes: a acetilcolina e noradrenalina, elas são responsáveis pela capacidade de memorização dos fatos ocorridos durante o dia (entre outras funções). Já no período do sono, as produções destas substâncias diminuem e aumentam a produção de serotonina, a qual faz com que nossos sonhos (imagens mentais) não sejam reproduzidos em movimento muscular, há um mecanismo de bloqueio dos músculos.
A hipótese, já confirmada, de alguns cientistas americanos (Tononi, Chiara, e cols, 1996) é de que a acetilcolina e noradrenalina são responsáveis pela conexão entre os fatos ocorridos durante o dia: nossas ações, pensamentos, sentimentos, etc. com os circuitos “matrizes” já existentes, gravando aquela informação como memória de trabalho, curto ou longo prazo. Ou seja, estas substâncias são importantes para a formação da memória em si. Mas dependem da nossa vigília, a qual está relacionada com a atenção.
Bem, como eles fizeram pra provar esta hipótese? Lesaram a área responsável pela produção destas substâncias (somente em um lado do cérebro, o locus coerulus), de ratos, e os deixaram acordados durante muitas horas. Durante a vigília mediu-se cada lado do cérebro do rato para saber se a produção destas substâncias tinha diminuído em função da lesão e quais os efeitos desta intervenção.
A resposta foi: SIM! Confirmou-se a hipótese inicial. Isso significa que os pesquisadores concluíram que com a diminuição de acetilcolina e noradrenalina circulante no cérebro não foram observadas as novas conexões neurais, diminuindo a capacidade de memória. É assim que nosso cérebro funciona durante os sonhos: com a baixa destas substâncias. Por isso sonhamos, porém não lembramos...
A autora dá algumas dicas para quem quiser lembrar os sonhos, uma delas: um dia quando acordar espontaneamente (sem despertador) prolongue este momento (entre o sono e a vigília) e tente jogar as informações oníricas para a sua memória de curto prazo, faça o circuito funcionar conscientemente, então você terá acesso aquelas informações durante o dia, até o próximo sonho chegar...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

ANSIEDADE E COGNIÇÃO





Na verdade a proposta deste post é discutir sobre os transtornos de ansiedade e os possíveis déficits de ansiedade. Pois se sabe que a ansiedade por si só pode ser muito útil na adaptação e enfrentamento de desafios, (será que é bom ficar muito calmo num dia de prova? Ou muito nervoso?). Caso a ansiedade não leve a um prejuízo no cotidiano ou a perdas em geral ela é adaptativa, caso contrário ela é considerada como um transtorno de ansiedade e classificada como tal em alguns manuais de psiquiatria.

Existem muitos tipos de transtorno de ansiedade, mas não exploraremos os tipos específicos, usaremos no momento, o termo mais geral, pois o objetivo é analisar, o que a alta ansiedade tem a ver com a cognição?

Este nível alto de ansiedade produz sintomas somáticos em conseqüência da ativação do sistema nervoso autônomo, assim como a excitação crônica pode levar a dor de cabeça, hipertensão e problemas intestinais, além de uma preocupação excessiva com quase tudo ao redor. É aí que entra o prejuízo cognitivo em pessoas com transtorno de ansiedade. Será que quem sofre de transtornos de ansiedade tomam decisões rapidamente? Ou realizam funções executivas normalmente, ou ainda tem sua memória funcionando bem?
“Pesquisas recentes mostram que o estresse crônico pode produzir atrofia no hipocampo, uma estrutura cerebral envolvida na aprendizagem e na memória”. ‘ (Mc Ewen, 2000)

domingo, 26 de abril de 2009

ALUCINAÇÃO



As alucinações visuais funcionam de maneiras bastante distintas no cérebro humano, elas estão mais relacionadas a déficits neurais, alterações dos neurotransmissores ou ainda a disfunções do sistema de reconhecimento emocional. Entre as alucinações, estão os delírios.
Uma profunda disfunção do sistema de reconhecimento emocional pode causar experiências sensoriais esquisitas. O delírio de Fregoli, por exemplo, é uma disfunção na qual as pessoas acometidas confundem estranhos com pessoas que lhes são familiares. Nestes casos um bloqueador de dopamina ajuda os pacientes a diminuírem a falta de reconhecimento emocional. O remédio não remove os delírios, mas o falso reconhecimento.
No delírio de Capgras, o sistema de reconhecimento emocional está subativo e não suprativo, fazendo com que os pacientes enxerguem as pessoas como elas mesmas, porém não fazem o “click” do reconhecimento. Os pacientes com delírio de Capgras têm também uma disfunção cognitiva, eles criam explicações esquisitas para suas percepções distorcidas. Em tais casos, a causa do déficit cognitivo pode ser atribuída a uma lesão cortical.
Segundo Rita Carter, as imagens podem vir de fora ou pode ser gerada dentro da mente, a atividade cerebral é igual nos dois casos. Portanto, imaginar a foto de alguém que você conhece ativará a UFR (unidade de reconhecimento facial) daquela pessoa da mesma maneira que olhar para uma foto dela.
Como dissemos na ultima postagem, o cérebro não transcodifica o mundo exterior, ele o constrói em respostas a estímulos. Os estímulos, normalmente, vêm de fora e levam o cérebro a criar uma imagem que está de acordo com as informações que está recebendo. Ás vezes pode acontecer do cérebro lê erradamente as informações que chegam (criando uma ilusão) ou gerar seus próprios estímulos, que então são interpretados como vindo de fora (delírios/alucinações).
As alucinações podem ser entendidas como experiências sensoriais geradas automaticamente excepcionalmente intensas. O trabalho com esquizofrênicos demonstrou que as vozes ouvidas por eles são de fato, a própria voz. (Carter, 2002). Este assunto é muito importante no estudo da mente e da percepção, abrindo-se outros canais para o entendimento da mente, inclusive de doenças como a esquizofrenia.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

ALUCINAÇÃO E ILUSÃO: ILUSÕES (parte I)


A visão é um dos sentidos mais complexos e sofisticados nos seres humanos. Nos estudos sobre percepção visual, sabe-se que a visão é um processo mais interpretativo do que um processo de tradução do mundo “real”. Isto é, enxergamos com nosso cérebro e não apenas com os olhos, estes funcionam como um canal por onde entram os estímulos visuais externos (http://martabolshaw.blogspot.com/2008/10/ensaio-sobre-cegueira-uma-viso.html). Obviamente que sem olhos não é possível enxergar, mas é possível manter a imaginação ou mesmo produzir-se alucinação. Já o fenômeno da ilusão perceptiva é altamente dependente do aparelho visual (olhos, cristalino, retina, etc.).
O objetivo destas postagens é diferenciar a ilusão perceptiva (http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7693396.stm) da alucinação, portanto é interessante sabermos que a primeira é um fenômeno mais ligado a erros cognitivos em relação ao processamento perceptual, às vezes como uma proteção do organismo em relação ao meio, ou mesmo por algum tipo de compensação. Já o segundo está mais ligado a alterações neuroquímicas (quase sempre aumento ou diminuição de neurotransmissores) de áreas específicas do cérebro. As alucinações não são necessariamente visuais, é muito comum existirem alucinações auditivas, por exemplo. Contudo iremos nos referir as alucinações visuais.
Neste primeiro post, falaremos sobre a ilusão, seguida da alucinação (parte II).
Segundo Rita Carter (2002), algumas ilusões são causadas por processos relativamente mecânicos, outras, porém, nos mostram alguns mecanismos cerebrais mais complexos: o que pode parecer à primeira vista um erro dos sentidos é na verdade um erro de cognição, e em alguns momentos os dois (erro sensorial e cognitivo) podem acontecer ao mesmo tempo. As ilusões cognitivas ocorrem porque o cérebro é cheio de preconceitos: hábitos de pensamentos, reações emocionais reflexas e ordenamentos automáticos da percepção. Estes preconceitos estão, de certa forma, pré-estabelecidos no nosso design neural. Esse modelo de teorias pré-pogramadas nos permitem a tomar decisões rápidas, práticas, sobre como reagir àquilo que percebemos.
“Os preconceitos que dão origem às ilusões sensoriais são geralmente benignos. A ilusão de uma miragem no deserto pode ser um truque cruel, mas não é um que tire muitas vidas hoje em dia e os mágicos podem usar nossos vários pontos cegos para iludir, mas isso geralmente é feito por uma feliz conspiração com o iludido.” Carter, 2002
Portanto, para concluir este post, as ilusões perceptivas (http://martabolshaw.blogspot.com/2008/11/viso-tnis-e-erros-perceptuais.html) são curiosas e até usadas de maneiras lúdicas através da mágica e brincadeiras, contudo, existem as ilusões puramente cognitivas, aquelas nas quais as percepções afetadas são mais as idéias que os fenômenos sensórios. As idéias ilusórias podem induzir a erros graves. Mas como o pensamento é algo mais flexível do que os objetos matérias, é possível fazer ele (o pensamento), estar em constante atividade física para não se torna rígido demais!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

VACINA CONTRA O STRESS!


Muitas pesquisas investem no conhecimento biopsicossocial em relação à ansiedade e ao estresse. Pois se sabe que o estresse é um dos preços pagos pela vida moderna, porém não entraremos nessa discussão. Contudo é de fundamental importância diferenciar, rapidamente, o conceito de ansiedade (http://www.nnce.org/pubs/2006/2006FreezingeTranstornosdeAnsiedadePsicologia.pdf) e o de estresse. O primeiro é necessário (em alguns níveis) para a sobrevivência. O segundo não, quando de fala em estresse, já se fala de uma ansiedade acima da média e, portanto “patológica” para resumirmos esta questão, a qual também não é nosso objetivo no presente post.
O estresse tem afetado a um grande número de pessoas, e a possibilidade de criação de uma vacina que neutraliza os efeitos do estresse é fantástica. Até porque, segundo os cientistas é mais fácil neutralizar seus efeitos (do estresse) do que impedi-lo!
O pesquisador primatologista Robert Sapolski estuda a possível realização deste desafio: criar uma vacina contra as conseqüências do estresse. A idéia geral da pesquisa é inserir proteínas “neuroprotetoras”, e também estrogênio, de uma forma modificada do vírus do herpes (por ser um tipo de vírus que fica acomodado sem manifestar-se dentro das células nervosas) no córtex de ratos de laboratório e produzir algum tipo de estresse neles, iniciando-se o gatilho de todo o processo de infecção causado pelo vírus do herpes pós-estresse. As proteínas “neuroprotetoras” entram em ação no combate contra a infecção e morte das células afetadas.
Sabe-se, que quando os hormônios relativos ao estresse aumentam na corrente sanguínea, e o organismo é portador do vírus do herpes, por exemplo, gera-se a chance da infecção se instalar, no mínimo por alguns dias. O esforço do sistema imunológico deve aumentar como resposta bioquímica ao estresse (suprimindo-o).
Sapolski está inserindo o vírus do herpes no córtex dos ratos e ao mesmo tempo o que seria o tratamento: proteínas neuroprotetoras, e criando dois grupos de ratos: um deles é o grupo controle e o outro é o grupo experimental. No primeiro, injeta-se apenas o vírus do herpes e cria-se o estímulo estressante. No segundo, injetam-se as proteínas “neuroprotetoras”, além do vírus do herpes e do estimulo estressante. Resultado: os ratos que tiveram o tratamento “medicamentoso” recuperaram as células infectadas e mortas, enquanto os ratos do grupo controle tiveram 40% dos neurônios da região definitivamente afetadas.
Leher (http://scienceblogs.com/cortex/) nos alerta: se ficarmos calmos e relaxados não precisaremos entrar nesta luta, porém enquanto ainda não descobrimos o botão contra o estresse é bem interessante investir contra suas conseqüências, como foi demonstrando nesta pesquisa. O estresse pode gerar vários tipos de doenças, desde herpes, doenças auto-imunes até depressões graves e alguns tipos de perda de memória. Em suma: façam yoga e meditação caso seja possível! CARPEM DIEM!!

terça-feira, 21 de abril de 2009

GRUPO DO RISO





Pesquisadores da Califórnia demonstraram, ainda com uma pequena amostra, que aquilo que se diz no senso comum, pode ser uma verdade científica: pessoas mais felizes, ou no mínimo mais bem humoradas, podem sofrer menos de doenças cardíacas. Este post é baseado numa reportagem do jornal O Globo (20/04/09).
"Os melhores médicos sabem que existe uma ligação intrínseca entre as emoções positivas, o otimismo e a esperança, e a melhora do quadro das doenças." O Globo, abril, 2009.
O pesquisador Lee Berk, psiconeuroimunologista da Loma Linda University, na Califórnia, que coordenou o estudo, afirma não há dúvidas de que há uma relação estreita entre o bem-estar emocional e a saúde física. Berk e sua equipe conduziram uma pesquisa com 20 pacientes diabéticos de alto risco, onde eles foram divididos em dois grupos com tratamentos medicamentosos idênticos, porém o segundo grupo, o grupo do riso, tinha uma importante variável: assistiam a um programa humorístico, diariamente por 30 minutos.
Resultados: os participantes do segundo grupo aumentaram os níveis de HDL (colesterol bom) e reduziram o nível dos hormônios ligados ao estresse. Esses hormônios quando estão em baixos níveis no organismo, diminuem a possibilidade de processos inflamatórios no organismo e conseqüentemente reduzem o desenvolvimento das doenças cardiovasculares. Pois se sabe que a inflamação crônica é uma das causas de doenças coronárias. Verificou-se que esses pacientes tiveram uma melhora de 66% nos níveis da proteína-C reativa (um indicador de processos inflamatórios no organismo) e de 26% nos níveis de colesterol.
Conclusão: Rir ou, ter senso de humor, pode fazer muito bem ao coração! Mas eu me pergunto se uma pessoa tiver exposta à níveis muito altos estresse no seu dia a dia, será que momentos mais “divertidos” neutralizam o estresse e suas conseqüências? Bem, creio que mais pesquisas devam ser feitas neste campo, ainda há um longo caminho a percorrer...